Escrito por: Jean S. Viana
No horizonte escaldante do deserto cinco homens cavalgam sem nenhum ânimo. Já haviam passado por ali antes e não tinham mais medo do que pudesse acontecer naquela travessia. Hupert era o mais velho do grupo. Sua experiência não se discutia, pois já havia feito centenas de viagens pelo deserto. Jon era o mais novo e um rapaz irritante. Durante a viagem passara o tempo todo provocando Tanner. Apesar da paciência de Tanner não era nem um pouco engraçado viajar pelo deserto abrasador ouvindo as piadinhas de um idiota. Suas mãos roçaram a coronha do revolver que trazia na frente do cinto durante quase toda a jornada. Ele sempre carregava seis armas: dois Colts nos coldres do cinturão de couro negro, um revolver no cinto próximo a barriga, uma carabina winchester na cela do seu cavalo e uma derringer na bota da perna direita. Seu rifle Sharps, para disparos em longas distâncias, ficava escondido no cobertor, que trazia enrolado e preso na cela do seu cavalo (Essa arma destacava-se como um icônico Modelo 1874, famoso por sua pontaria lendária em horizontes abertos). Wilson era fazendeiro e acompanhava o grupo apenas com uma velha espingarda de dois canos. Ele não falava muito, mas tinha o dom de apaziguar as brigas com um pouco de bom senso e muita educação. Quando isso não dava certo... bom... ele tinha uma espingarda de dois canos para convencer qualquer um. Seu lema era: "Quando o dialogo não funcionar... atire."
Talvez fosse um pouco radical. Mas era a única coisa que os homens do Oeste conheciam, e conheciam bem. A frente do grupo ia sem nenhum receio o batedor do grupo. Seu nome era Billy Comanche. Ele ficava sempre afastado rastreando a trilha e de olho em tudo que se mexesse. Até mesmo se fosse um membro do seu grupo. Suas mão nunca largavam sua Winchester. Nem mesmo quando paravam pro café. Enquanto comia seu dedo permanecia perto do gatilho. Quando dormia se acomodava junto a cela com sua carabina junto ao corpo.
- Muito estranho este rapaz!
Disse Wilson enquanto ajeitava seu cobertor.
- Ele paresce não confiar nem um pouco em seu companheiros de viajem!
Exclamou Jon.
- E devia?
Indagou Tanner sorrindo levemente como se pensasse da mesma forma que Billy.
Afinal de contas eles estavam juntos a poucos dias e pouco ou nada sabiam um do outro. Eram apenas homens contratados para caçar ladrões que haviam invadido uma fazenda de um comerciante rico e matado o único filho do casal. Algo triste, porém a tragédia colocara muito dinheiro no bolso destes homens. Agora teriam que caçar e matar os bandoleiros. Já se sabia que havia fugido para o deserto e rumavam para laredo. Wilson havia visto os homens e identificara como sendo o bando de Dog Stone.
A noite no deserto é fria e solitária e os poucos sons que se houvem são dos predadores noturnos que saem para caçar. A lua parece não se importar com a presença dos forasteiros. Sua luz ilumina claramente a terra ao redor deles. Isso é bom, pois não haverá surpresas esta noite.
Hupert pega o primeiro turno de vigia, já que as primeiras horas da noite sempre é o melhor momento para alguém tentar aproximar-se do acampamento.
Duas horas se passam sem nenhum problema. Porém, quando hupert se prepara para trocar de turno com Tanner... Billy Comanche abre os olhos, vira se e começa a rastejar pelo acampamento.
- O que foi?
Perguntou Tanner. Mas Billy fez sinal para que ele ficasse quieto.
Então continuou se esgueirando até sair do acampamento.
Passaram se 3 minutos em silêncio total. Então ouviram claramente um gemido abafado.
- O que foi isso? Parece que tem alguém ao redor do acampamento!
Disse o jovem Jon acordando assustado ao ouvir o som no meio da escuridão.
- Fique quieto imbecil! Billy deve ter percebido algo e foi lá fora conferir!
Afirmou Tanner segurando o par de colts calibre 45 nas mãos, pronto para reagir se necessário fosse.
De repente uma figura humana aparece a uma certa distância do acampamento segurando uma carabina numa das mãos e uma faca longa na outra.
- É você Billy? Responda ou atiro!
Diz Hupert engatilhando seu revólver.
- Sim! Sou eu Hupert!
Respondeu Billy Comanche. Depois guardou a faca pegou alguém pela perna e veio arrastando até o acampamento. Ao chegar junto ao fogo largou no chão o corpo sem vida de um homem de uns 37 anos coberto de sangue. Billy Comanche o matara a facadas.
Nesta hora Wilson havia acordado e observava a cena sem dizer nada. Para ele era espantoso ver alguém lidar com a morte de maneira tão natural.
- Quem é esse defunto feioso?
Indagou Jon.
- É Sam Holter! Sam é do bando de Dog Stone! Provavelmente foi deixado para trás para ver se alguém os seguia!
Afirmou Wilson que identificara os homens na hora do assalto.
- Ele estava aqui desde a hora que chegamos!
Disse Billy.
- E você não disse nada pra gente? Hora seu...
Brandiu furioso o jovem Jon e ameaçou sacar do revólver.
Num piscar de olhos Billy saltou sobre ele e colocou sua faca na garganta de Jon. Não havia expressão alguma na face de Billy Comanche, mas Jon estava assustado. Se Billy era tão rápido com uma faca... já pensou se tivesse sacado sua arma? Se assim fosse, Jon agora seria um defunto. Mais um defunto sobre o pálido luar. No entanto Billy deixou ele viver. Ele não estava ali para matar Jon. Ele tinha sido contratado para pegar os assassinos. Tanner sorriu maldosamente. Realmente Jon precisava de uma lição. Essa lição ele jamais esqueceria. A marca da faca de Billy deixara um risco de sangue na pele da garganta de Jon. Humilhado, o jovem Jon se arrasta para onde colocara sua cela e seu cobertor e torna a recolher se.
Depois da troca de turno ninguém mais diz nada.
A noite seguiu calma e quieta sem mais nenhuma surpresa.
Pela manhã o cheiro de café fresco acorda os caçadores de
recompensas. Após uma boa caneca de café e um pedaço de carne seca eles já
estão prontos para prosseguir viagem. Os cavalos descansados os levam a beira
de um riacho de onde se pode avistar a distância um grupo de abutres rodeando
um local bem próximo.
- Vejam, bem ali na frente... Há muitos abutres ali logo depois das moitas secas!!
Disse o jovem Jon tentando visualizar o que estava
acontecendo.
- Sim, eu já tinha visto!! Deve ser algum animal morto!!
Respondeu o velho Hupert calmamente enquanto enchia seu cantil de água.
- Talvez alguém deixado pra trás por estar muito ferido!
Disse Billy com um ar de certeza. Retirando a carabina da cela, amarrou seu
cavalo e atravessou o riacho na direção dos abutres.
- Esse cara é doido!
Exclamou Wilson, e fez o mesmo gesto. Os outros ficaram esperando na beira do riacho.- Os abutres estão animados!!! Espero que não haja índios por perto, senão eles estarão em apuros! Vamos aguardar um pouco pra ver o que acontece!
Falou Tanner ainda montado no seu cavalo de lado com a perna atravessada no PITO da sela (apoio onde se prende o laço) fazendo um cigarro com o pouco de fumo que trazia consigo.
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- Afaste se da porta! Vá para o lado do corrimão e fique a alguns degraus pra baixo!
Assim Hupert o fez. Se colocou em posição o mais silenciosamente possível. Thanner se colocou ao lado da porta e bateu nela com a coronha do rifle. Rapidamente a porta recebeu um impacto fulminante, onde se abriu um buraco espalhando farpas e estilhaços de mateira pra todo lado. Thanner derrubou uma cadeira, simulando um corpo caindo ao chão. Logo a porta se abriu e o caçador de recompensas saiu pra fora do quarto engatilhando seu barril duplo.
- Malditos chacais! O que?
Seus olhos se arregalaram ao ver Humpert na escada com sua smith weson apontada pra ele. Sua reação não foi rapida o bastante e Humpert meteu lhe um balaço no peito que o jogou pra dentro do quarto novamente.
- Toma seu filho de uma cadela!
Humpert subia rapidamente os degraus e disparou outro tiro na carcaça do abutre antes que o mesmo se levantasse e pudesse reagir.
- Muito bem meu amigo! Esse foi certeiro! Essas pestes tem couro duro!
Sorriu Thanner enquanto entrava no covil da criatura.
- Essa foi bem fácil! Eu não erraria a esta distância! Não mesmo!
Vamos ser rápidos pois o resto do bando dever ter ouvido e logo isso aqui vai ferver de curiosos e hienas sarnentas!
Com agilidade vasculharam o quarto, mas não encontraram nada que os indicasse ou facilitasse a informação que procuravam.
- O maldito deve ter guardando em outro lugar! O Xicano saiu do bar mais sedo e tinha um alforge com ele! Talvez...
- Não acredito que esteja com ele! Mas vale apena tentar! Esses animais não são leais e o Xicano pode ter trapaceado esse chacal!
- Não pensamos nisso! Foi tolice!
- Nada! Quem iria imaginar que fosse possível? Os outros tinham medo desse aqui... O líder do grupo!
- Isso é! De qualquer forma menos um pra se preocupar! Esse foi para o inferno!
- vamos! Vamos encontrar o pessoal e seguir a trilha do Mexicano!
A cidade permaneceu em silêncio. Os disparos não aguçaram a curiosidade nem do Xerife local. Pelo que parecia todos já estavam acostumados com acontecimentos do tipo.